"E a montanha insiste em ficar lá, parada."
ADRIANA CALCANHOTO, no CD Maré

"E a montanha insiste em ficar lá, parada."
ADRIANA CALCANHOTO, no CD Maré


ELEVADOR
“Histórias em quadrinhos são a fantasmagórica fascinação daquelas pessoas de papel, paralisadas no tempo, marionetes sem cordões, imóveis, incapazes de ser transportadas para os filmes, cujo encanto está no ritmo e no dinamismo. É um meio radicalmente diferente de agradar aos olhos, um modo único de expressão. O mundo dos quadrinhos pode, em sua generosidade, emprestar roteiros, personagens e histórias para o cinema, mas não seu inexprimível poder secreto de sugestão, que reside na permanência e na imobilidade de uma borboleta num alfinete.”

(Desenho do fundo do baú)

Ernesto Zamparoli suou frio a noite toda e acordou de madrugada, se sentindo meio estranho. Foi ao banheiro, lavou o rosto e encarou no espelho o seu oposto:
- Esse é o homem que eu imaginei ser um dia?
Trepou num cavalete bambo, no meio da sala, e esperou o dia amanhecer. Aquela seria a noite de sua estréia e a necessidade de aprovação lhe causava angústia.
Às oito da manhã ele saiu apressado e correu até o ponto de ônibus. Súbito, se sentiu bem disposto, decidiu não parar e continuou correndo. Trombou com pessoas na calçada e escapou várias vezes de ser atropelado por automóveis e bicicletas. Em dúvida sobre qual caminho devia seguir, foi tomando direções ao acaso.
Quando já anoitecia, se vendo perdido, Zamparoli parou de correr. Só então percebeu, aliviado, que se encontrava diante do prédio em que morava.
Às oito da noite, enquanto todos o aguardavam para a estréia, ele estava diante do espelho, molhado de suor e com um sorriso de satisfação no rosto. O seu oposto o encarava, apontando, orgulhoso:
- Esse é o homem... esse é o homem...
SMILE
endo o meu olhar curioso, juntou as fotos e colocou, de maneira desajeitada, num envelope pardo.
O CORAÇÃO DAS RUAS
A BORBOLETA E OS OVOS
O relógio marca 14 horas quando Anerlinda, descalça e vestindo uma longa túnica branca toca a campainha da casa de número 69 de uma rua tranqüila.
Quem atende à porta é um senhor de setenta e poucos anos, calvo e de barba grisalha. Com uma mão na maçaneta e a outra no bolso do roupão azul desbotado e cheirando a urina, ele a encara com olhar aborrecido.
Com as duas mãos ela levanta, reverente, acima da própria cabeça, uma pequena garrafa que contém um estranho líquido amarelento. E pronuncia algumas palavras, em tom reverente:
- É curta a distância entre o paraíso e o inferno, o amor e o ódio, a glória e o esquecimento. Não há divindade além de Elkha Rhamá e tu és o nosso mestre e profeta, adorado La Rhiva.
Mal acaba de falar, Anerlinda destampa a garrafa, toma um gole e despeja o resto do gosmento líquido nos pés do velho, que começa a praguejar feito doido e a expulsa dali aos berros.
Ela corre, amedrontada, e percebe que fez confusão com os números ao ver um grupo reunido em frente ao número 96 da mesma rua. Todos louvam o grande mestre e fazem o ritual da garrafa, menos Anerlinda. Por ter derramado o precioso líquido nos pés de um velho ateu, pelo resto da vida ela será amaldiçoada.
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