HORÓSCOPO CHINÊS16 junho 2009
26 maio 2009
No início do século, numa manhã de segunda-feira, duas vacas no pasto ainda molhado pelo orvalho, com capacetes multicoloridos, olham desconfiadas os passaportes que lhes são apresentados.
Amélia e Aurora, duas jovens de vinte e poucos anos se entreolham, com os nervos à flor da pele. Após quatro noites sem dormir, caminhando pela mata fechada, com fome, sono e bolhas nos pés, agora não podem prosseguir. Estão ali há exatos 33 minutos e as vacas, irredutíveis, apenas balançam as cabeças e os rabos,
negando-lhes a passagem.

Aurora se afasta, entra na mata e sai de lá só de biquíni, com um celular em punho. Isso parece ter agradado demais as vacas, pois elas começam a se abraçar e saltitar. Uma delas tira o capacete e fala:
- Por favor, se não for pedir muito, será que vocês podiam entrar na mata e chegar aqui de novo?
Munidas de mapas e bússolas, Amélia e Aurora somem mata adentro. Cruzam morros, vales e rios, enfrentam aranhas e noites de frio e toda espécie de mosquito. Quando regressam, exaustas, encontram as duas vacas no pasto ainda molhado pelo orvalho, que olham desconfiadas os passaportes das duas jovens e balançam as cabeças, negando-lhes a passagem.

25 fevereiro 2009
(CASOS DA BANCA III)

O mundo anda cheio de malucos. Recebi uma visita inusitada de um vendedor de adesivos, para colar no carro, com frases religiosas. Ele chegou, ofereceu o seu produto "baratinho, se não vender eu compro pelo dobro do preço", e, diante de minha recusa, saiu enfurecido e esbravejou:
- Você deixou de comprar a coisa mais importante do mundo!
Eu, sem entender direito, achei engraçado e esbocei um sorriso. Ele:
- Ainda hoje você vai receber um aviso, viu? Deus vai falar: "Você deixou de comprar do meu filho, você vai ver o que Eu vou fazer..."
Entrou no carro e saiu pisando fundo, me lançando um olhar ameaçador.
Isso foi de manhã. À tarde, tocou o telefone. Ligação a cobrar. Atendi, e após ouvir "a pessoa que chama se identificará", fez-se um silêncio do outro lado da linha. Tentei fazer contato, dizendo "alô" três vezes. Quando fui desligar, uma voz, que não consegui identificar se era de homem ou de mulher, falou tenebrosa e pausadamente:
- M-O-R-R-E-U...! - e desligou.
Confesso que, como nos contos de Poe, senti um arrepio percorrer a espinha.
Depois disso, o telefone tocou, insistentemente, durante muito tempo. Eu só tirava do gancho e colocava de volta.
Me lembrei de "Dick Lorrant is dead...", que o personagem do filme A Estrada Perdida ouve ao atender o interfone.
O aviso enigmático que recebi podia ser um recado de que alguém morrera. Mas eu, depois da visita do vendedor maluco que havia recebido de manhã, entendi como uma ameaça dos céus.
Imagino que os dois casos não tenham relação alguma, mas à noite, antes de dormir, ainda estava intrigado e pensando comigo mesmo:
- É, Deus, tempos difíceis, hein? Ligação a cobrar?
24 janeiro 2009
(CASOS DA BANCA II)
Antônio, um dos taxistas do ponto em frente à banca aprendeu a jogar xadrez comigo. Pegou gosto pela coisa e agora não pára mais. Ensinou a mulher e a filha, para poder jogar em casa, e ainda joga sozinho, no celular.
Quando temos tempo, coloco o meu tabuleiro sobre o balcão da banca, que fica de frente pra rua e disputamos algumas partidas. Acontece dele ser chamado para uma corrida e então o jogo fica suspenso.
As peças do meu jogo se assemelham a figuras reais: o bispo com cara de bispo, a rainha com os trajes de rainha, e assim também o rei.
Numa dessas ocasiões em que o Antônio teve que sair, uma senhora passou, curiosa, encarando as peças do jogo. Não resistiu, voltou e pegou o rei preto na mão e o examinou com atenção. Colocou-o de volta no tabuleiro e me perguntou, com ar de devoção:
- E Santo Antônio, o senhor não tem?
(CASOS DA BANCA)
Tenho uma banca de jornais e revistas, onde fico a maior parte do dia. Passam por lá (como em todos os comércios), pessoas dos mais diversos tipos. As pessoas que chegam - comprando ou não - não se furtam a fazer algum tipo de comentário, sejam eles sobre as manchetes dos jornais ou, na maioria dos casos, sobre o clima: "que calor!", "vai chover!", "tempo doido, sô!", e por aí vai. Um dia desses foi um sujeito comprar cartão telefônico e chegou comentando:

- Eh, chuvinha boa! Tava precisano, né? Agora, iscuita só, é só chovê uns dois dia e o povo começa reclamá. Num tem jeito. Se tem sol, o povo reclama. Se tem chuva, o povo reclama.
Aí, então, Deus fala: - Eu vô judiá desse povo... E ele judeia mêmo!
22 janeiro 2009
14 janeiro 2009
02 janeiro 2009
31 dezembro 2008
DEPOIS DE ANOSO filme já foi chamado de Alice no País das Maravilhas às avessas. Tim Burton, que cedeu gentilmente a direção a Martin Scorsese, hoje filma a fábula original de Lewis Carroll, quem sabe para compensar o fato de não ter dirigido Depois de Horas naquela época.
27 novembro 2008
19 novembro 2008
17 novembro 2008
Planejei assistir Vicky Cristina Barcelona no final de semana, mas o câmbio do carro quebrou e não deu. Sou fã de carteirinha de Woody Allen, tenho quase todos os filmes dele, alguns ainda em VHS. Nenhum artista, por melhor que seja, consegue ser 100% excelente, todos tem seus altos e baixos. Com Woody não é diferente, e embora eu prefira muitos dos seus filmes mais antigos (Crimes e Pecados, A Rosa Púrpura do Cairo, Zelig), acho que ele tem feito coisas muito interessantes, ultimamente. Muitos cobram uma volta às comédias de início de carreira (Bananas, Um Assaltante Bem Trapalhão), mas ele, fã de Bergman, sempre gostou mais de drama.
Segundo Eric Lax, um jornalista americano que o entrevistou por 36 anos e agora lança o livro CONVERSAS COM WOODY ALLEN, ele construiu sua carreira na comédia na esperança que os estúdios, depois que ele fizesse nome como cômico, financiassem seus dramas, o que acabou acontecendo.
Ainda segundo Lax, Woody detesta prêmios: "Se você aceita um prêmio, aceita também a opinião de quem o deu e terá de aceitá-la novamente se essas mesmas pessoas decidirem que seu filme seguinte é um fiasco".
Lax revela também: "Como muitas pessoas engraçadas, Woody tem uma visão melancólica da vida."
E uma boa notícia. Mais três filmes dele estão sendo lançados em DVD: Broodway Danny Rose, A Era do Rádio e Memórias (o preferido do Biajoni).
11 novembro 2008

Aleluia! Fui um dos escolhidos: Recebi, em mãos, a 3ª Profecia de Fátima!
Oitenta e oito anos depois da aparição da Santa às criancinhas italianas, a igreja católica autorizou a divulgação do segredo.
O objetivo, segundo a carta que recebi "não é causar pânico, mas para que as pessoas devam conhecer para se prepararem".
A profecia fala de acontecimentos "nas proximidades do ano 2000":
"Um homem em posição muito alta será assassinado, e isto causará a guerra. Uma arma poderosa caminhará através de Europa e a guerra nuclear começará."
Mas, não se preocupe. Compartilho aqui a receita para quem quer se livrar da catástrofe:
"Velas santificadas e (tchanrã!!!) água benta."
"O senhor protegerá as propriedades dos eleitos".
"Em uma noite muito fria, 10 minutos antes da meia-noite, um GRANDE TERREMOTO sacudirá a terra durante 8 horas."
Sim, às 8 horas, mas no horário de qual país? E o horário de verão, avisaram a Santa, pelamordedeus?
06 novembro 2008
05 novembro 2008
24 setembro 2008
"E a montanha insiste em ficar lá, parada."
ADRIANA CALCANHOTO, no CD Maré

23 setembro 2008

Eu caminhava pela avenida, observando os edifícios, quando avistei, do outro lado da rua, a felicidade.
Embora tenha feito plástica e mudado o penteado, não havia dúvida: era ela. E caminhava linda, leve, num moderno formato 3D.
Um caminhão de sexo e morte encostou do seu lado, o motorista pôs a cabeça pra fora e gritou, de maneira desesperada:
-Cuidado! Existem outras mais bonitas que você em cada esquina, é melhor se cuidar!
Quando o caminhão se afastou, ela correu assustada para o seu carro blindado e saiu cantando os pneus.
Respirei fundo, fechei os olhos, e ouvi uma explosão ensurdecedora.
16 setembro 2008
02 setembro 2008
26 agosto 2008
ELEVADORFicou dez anos e dois meses lá. Quando finalmente saiu, seus cabelos, que eram castanhos, haviam branqueado.
Hoje vive sentada no banco da praça, debaixo da constante chuva fina que cai sobre a cidade.
Aborda os que passam, pede um cigarro e pede também um tempinho para ouvirem as suas histórias. Desfia lembranças e casos da vida toda, e se empolga ao contar da época em que vivia no elevador.
- Lá era uma maravilha - diz Vitória, com olhos perdidos no passado - e não chovia nunca, acredita?
25 agosto 2008
23 agosto 2008

Querida e imaculada Clara,
Só agora consegui lhe escrever para contar o que se passou quando fui visitar o cego vidente. Você sabe que eu nunca acreditei nessas coisas e até hoje não sei como fui parar num lugar daqueles. Mas para mim tudo começou a fazer sentido assim que parei em frente à porta do velho casebre. Ouvi uma voz, que vinha do lado de dentro: "Estou vendo que tem gente com medo de entrar. Venha, venha mais fundo. Temos que ter mais intimidade com a morte".
Abri a porta e fui entrando bem devagar porque, confesso, realmente estava assustado.
O ambiente cheirava a mofo e, quando meus olhos se acostumaram com a escuridão, pude
enxergar o cego sentado em sua cadeira de balanço. Foi então que perguntei: "Quanto tempo ainda tenho de prazer nessa vida?"
Ele ficou imóvel e calado, me encarando como se pudesse me ver. Aos poucos, uma expressão indefinível foi estampando o seu rosto. Comecei a sentir dores terríveis por todo o corpo e uma sensação esquisita tomou conta de mim. As dores eram insuportáveis e uma inexplicável e brutal transformação aconteceu comigo.
Não vejo a hora de lhe encontrar, para que você mesma veja os detalhes dessa minha estranha metamorfose.
Só quero que você saiba, Clara, que estou mudado, muito mudado, mas estou cada vez mais igual.
...
20 agosto 2008
09 agosto 2008
03 agosto 2008
01 agosto 2008
31 julho 2008
“Histórias em quadrinhos são a fantasmagórica fascinação daquelas pessoas de papel, paralisadas no tempo, marionetes sem cordões, imóveis, incapazes de ser transportadas para os filmes, cujo encanto está no ritmo e no dinamismo. É um meio radicalmente diferente de agradar aos olhos, um modo único de expressão. O mundo dos quadrinhos pode, em sua generosidade, emprestar roteiros, personagens e histórias para o cinema, mas não seu inexprimível poder secreto de sugestão, que reside na permanência e na imobilidade de uma borboleta num alfinete.”
Federico Fellini









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