(CASOS DA BANCA III)

O mundo anda cheio de profetas. Recebi uma visita inusitada de um vendedor de adesivos, para colar no carro, com frases religiosas. Ele chegou, ofereceu o seu produto "baratinho, se não vender eu compro pelo dobro do preço", e, diante de minha recusa, saiu enfurecido e esbravejou:
- Você deixou de comprar a coisa mais importante do mundo!
Eu, sem entender direito, achei engraçado e esbocei um sorriso. Ele:
- Ainda hoje você vai receber um aviso, viu? Deus vai falar: "Você deixou de comprar do meu filho, você vai ver o que Eu vou fazer..."
Entrou no carro e saiu acelerado, me lançando um olhar ameçador.
Isso foi de manhã. À tarde, tocou o telefone. Ligação a cobrar. Atendi, e após ouvir "a pessoa que chama se identificará", fez-se um silêncio do outro lado da linha. Tentei fazer contato, dizendo "alô" três vezes. Quando fui desligar, uma voz, que não consegui identificar se era de homem ou de mulher, falou pausadamente:
- M-O-R-R-E-U...! - e desligou.
Confesso que, como nos contos de Poe, senti um arrepio percorrer a espinha.
Depois disso, o telefone tocou, insistentemente, durante muito tempo. Eu só tirava do gancho e colocava de volta.
Me lembrei de "Dick Lorrant is dead...", que o personagem do filme A Estrada Perdida ouve ao atender o interfone.
O aviso enigmático que recebi podia ser um aviso de que alguèm morrera. Mas eu, depois da visita do vendedor maluco que havia recebido de manhã, entendi como uma ameaça.
Imagino que os dois casos não tenham ligação nenhuma, mas antes de dormir ainda pensei comigo:
- Pô, Deus, ligação a cobrar?
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